Entre os temas da rodada, foi discutida a implementação da IA na formação médica e a inclusão de pessoas neurodivergentes
A oficina Nordeste II, realizada nos dias 6 e 7 de abril, reuniu representantes de instituições de ensino, serviços de saúde, docentes, discentes, residentes, preceptores, gestores e representantes de órgãos governamentais para debater a construção das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) da medicina. Entre as temáticas debatidas no encontro está o uso de tecnologia durante a formação e a inclusão de pessoas neurodivergentes no processo formativo. A próxima cidade a receber o Projeto Rever é Porto Alegre.
Eduardo Simon, diretor da regional Nordeste II, apontou que a utilização da tecnologia deve ser enxergada como assistencial na saúde e na educação. “Hoje nós temos a telessaúde, a telemedicina e a inteligência artificial, que fazem parte do cotidiano das pessoas. É importante pensar sobre isso na formação médica, refletindo sobre um uso responsável sem delegar às novas tecnologias aquilo que cabe às pessoas fazerem: o cuidado, a humanização e a segurança. Não podemos virar as costas para a tecnologia; devemos utilizá-la com sabedoria para aprimorar a assistência.” afirma.
A realização da oficina em Recife reforçou a importância dos territórios na construção das políticas de formação. A secretária executiva de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde do Recife, Andreza Barkokebas, ressaltou a relevância desse diálogo. “A integração entre ensino e serviço é essencial para qualificar a formação e fortalecer o SUS como espaço de aprendizagem.” Ela também apontou o papel das redes locais de saúde. “Recife tem uma rede estruturada que permite essa aproximação entre formação e prática, o que torna esse debate ainda mais potente.”
Durante a cerimônia de abertura, foi consenso de que a atualização curricular, por si só, não responde às demandas atuais da formação médica. O desafio colocado é mais amplo e envolve a qualificação dos processos formativos e a capacidade de responder às necessidades concretas da população e do Sistema Único de Saúde (SUS). Representando a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde (SGETS/MS), Gabriela Almeida Borges, reforçou: “O desafio não é apenas construir diretrizes, mas garantir que elas se materializem no cotidiano da formação” afirmou.
Já Elizabeth Guedes, presidente da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) e conselheira do Conselho Nacional de Educação (CNE), trouxe uma reflexão crítica sobre o momento atual ao discutir um contexto de grande expansão de cursos, “a qualidade deve ser um compromisso do qual não se pode abrir mão na implementação das diretrizes”.
A presença estudantil foi apontada como essencial para qualificar o debate. Para Romano Amaral, coordenador geral da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem) e estudante da Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte, “que a gente consiga, sim, uma formação médica de excelência, mas que não esqueça o olhar humanístico durante esse processo, nem o contexto em que esses alunos estão sendo formados. E que eles se voltem para a sua comunidade, realmente preparados para tratar o que precisa ser tratado e não apenas pensar no mercado.”
Houve também concordância entre os participantes da mesa que a formação médica exige uma construção coletiva, baseada na participação plural de diferentes atores envolvidos no processo. Para Estevão Toffoli Rodrigues, diretor vice-presidente da Abem, o projeto se consolida justamente pela multiplicidade de vozes. “A força do projeto Rever está na participação de diferentes atores. É essa diversidade que permite construir caminhos mais conectados com a realidade da formação médica no Brasil.” Nesse sentido, reforçou-se que a inclusão de instituições de ensino, serviços de saúde, docentes, discentes, residentes, preceptores, gestores e órgãos governamentais, é fundamental para a construção de caminhos mais alinhados à realidade da formação médica no Brasil, evidenciando o caráter coletivo e diverso desse processo.
A oficina em Recife integra o segundo ciclo de encontros do Projeto Rever, que vem promovendo debates em diferentes regiões do país. A proposta é consolidar uma construção coletiva das DCNs, capaz de refletir a diversidade do Brasil e responder aos desafios contemporâneos da formação médica.