A Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) realizou, nos dias 30 e 31 de março, em Manaus, mais uma oficina regional do Projeto Rever, iniciativa que vem promovendo, em todo o país, a construção coletiva de propostas para o aprimoramento da formação médica. Na região Norte, os desafios ganham contornos ainda mais complexos, tanto pelas distâncias geográficas quanto pelas especificidades no acesso à saúde, o que reforça a importância de pensar a formação médica a partir das realidades locais.
A diretora regional Norte da Abem, Luciana Brandão Carreira, destacou que a região traz contribuições fundamentais para o debate nacional, especialmente no que diz respeito à diversidade cultural e às competências necessárias para a prática médica. “A Região Norte oferece uma experiência marcada pela diversidade cultural e territorial, que exige o desenvolvimento de competências específicas, especialmente no campo sociocultural e humanístico”, afirmou. Ela também ressaltou o papel da Abem na articulação dos principais atores envolvidos na formação médica. “A Abem tem um papel fundamental na mobilização de estudantes, docentes, gestores e preceptores, criando espaços de troca que permitem identificar desafios comuns e construir soluções coletivas”, completou.
Já o coordenador discente da regional Norte, Caio Henrique Silva da Silva, chamou atenção para os desafios estruturais que impactam diretamente a formação médica na região, ressaltando a diferença do deslocamento entre Sul e Sudeste, já que no Norte acontece majoritariamente por meios fluviais. “Um dos principais desafios é a logística. Muitas vezes, o acesso aos serviços exige deslocamentos longos e complexos, o que impacta tanto a formação quanto o atendimento à população”, explicou.
Segundo ele, a dificuldade de acesso também está associada à desigual distribuição de profissionais e à limitação de campos de prática. “Há uma carência de profissionais e de estrutura em algumas regiões, o que dificulta o acesso dos estudantes a uma formação mais qualificada, especialmente no interior. Estamos aqui para discutir os desafios e pensar soluções para melhorar a qualidade do ensino e do atendimento que vamos prestar à população”, destacou.
Representando o Ministério da Saúde (MS), Miguel Águila Toledo destacou a centralidade da formação médica para o fortalecimento do sistema de saúde, especialmente no que se refere à continuidade da formação e à articulação com políticas públicas. “A residência é um processo essencial para a formação médica e precisa estar articulada com as necessidades do país”, afirmou, ao defender o fortalecimento das políticas de residência e a integração entre ensino e serviço. A fala também evidenciou o papel estratégico do Ministério no financiamento e na indução de políticas que garantam qualidade na formação, com atenção especial às regiões mais vulneráveis.
Pelo Ministério da Educação (MEC), Carolina Albuquerque da Paz reforçou o compromisso com a integração entre as políticas educacionais e as necessidades do sistema de saúde. “A gente quer estar junto em todos os processos que envolvem a educação médica e a formação na área da saúde”, destacou, ao defender uma atuação articulada e contínua no campo da formação. A participante também apontou para a importância de ampliar o olhar para além da medicina, integrando diferentes áreas da saúde em uma perspectiva mais abrangente.
A realidade amazônica foi um dos eixos centrais do debate. Representando o Conselho Regional de Medicina do Pará, Diana Albuquerque Sato destacou as especificidades do território e os desafios enfrentados na região. “Na Amazônia, especialmente nos interiores, a situação é mais complexa e exige respostas específicas para essas populações”, afirmou, ao chamar atenção para as dificuldades de acesso à saúde em áreas remotas, ribeirinhas e indígenas.
Já Tatiana Aguiar, do CRM do Amazonas, ressaltou a importância da articulação institucional e da responsabilidade coletiva com a qualidade da formação médica. “A qualificação da formação médica é também um imperativo ético e social”, destacou, ao reforçar o compromisso com uma formação alinhada às necessidades da população.
Francisca Valda, representante do Conselho Nacional de Saúde (CNS), reforçou que a construção de modelos de avaliação mais eficientes também é estratégica para fortalecer a atuação das equipes médicas no SUS, alinhando a formação profissional às necessidades reais da população.
A oficina de Manaus consolidou mais uma etapa do projeto, fortalecendo o diálogo entre diferentes atores e reafirmando a importância de uma formação médica conectada às realidades regionais e às necessidades do Sistema Único de Saúde. Nos dias 6 e 7 de abril, Recife (NE) recebe a próxima oficina.
A construção das DCNs é coletiva
Na abertura do evento, Sandro Schreiber, presidente da Abem, destacou o caráter coletivo do Projeto Rever e o acúmulo construído ao longo das oficinas realizadas em diferentes regiões do país. “Esses materiais e propostas só fazem sentido se forem construídos coletivamente, com a participação de todos”, afirmou, ao enfatizar que os documentos em debate são resultado de um processo contínuo de escuta e construção compartilhada. Ainda segundo Schreiber, a ampliação da participação com a chegada de novos atores representa um ganho importante para o projeto, ao incorporar diferentes perspectivas e fortalecer a capilaridade das propostas em todo o país.
Ao final da oficina, o diretor vice-presidente da Abem, Estevão Toffoli Rodrigues, retomou os principais pontos discutidos e reforçou o papel estratégico do Projeto Rever para o futuro da educação médica no país. “Só conseguimos avançar com intervenções coletivas. A produção de evidências e o trabalho conjunto são fundamentais para influenciar as políticas públicas de educação médica no Brasil”, afirmou.
Ele também destacou a importância de consolidar os resultados das oficinas regionais em propostas concretas, capazes de dialogar com as necessidades do sistema de saúde e orientar a formulação de políticas públicas.
O encontro reuniu preceptores, docentes, estudantes, gestores e representantes de instituições de ensino, além de órgãos do governo federal e instâncias de controle social. A mesa de abertura contou com a participação do presidente da Abem, Sandro Schreiber de Oliveira; da diretora regional Norte, Luciana Brandão Carreira; do coordenador discente da regional Norte, Caio Henrique Silva da Silva; das representantes dos Conselhos Regionais de Medicina Diana Albuquerque Sato (CRM-PA) e Tatiana Aguiar (CRM-AM); de Francisca Valda da Silva, coordenadora da Comissão Intersetorial de Recursos Humanos e Relações de Trabalho (CIRHRT) do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e membro da Mesa Diretora do CNS; de Miguel Águila Toledo, pesquisador pelo Ministério da Saúde; e de Carolina Albuquerque da Paz, membro da Comissão de Acompanhamento e Monitoramento das Escola Médicas (Camem) pelo Ministério da Educação.