3º Conem debate avaliação, DCNs e desafios da formação médica no Nordeste

Realizado em Aracaju (SE), o 3º Congresso Nordestino de Educação Médica (Conem) reuniu docentes, estudantes, gestores e pesquisadores, nos dias 1º e 2 de maio, para discutir os rumos da formação médica no país, tendo como eixo central a implementação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de medicina, avaliação programática, permanência estudantil, humanização da formação e os impactos das transformações tecnológicas sobre o ensino.

Promovido pela Regional Nordeste I da Associação Brasileira de Educação Médica, que reúne Bahia, Sergipe e Alagoas, o congresso se consolidou como espaço de articulação regional e construção coletiva em torno dos desafios contemporâneos da educação médica. A programação, incluiu conferências, mesas e apresentação de trabalhos científicos voltados à formação em saúde, em diálogo direto com os debates conduzidos nacionalmente pela entidade no âmbito do Projeto Rever.

Para Jerocílio Maciel Júnior, presidente docente do Conem, o encontro cumpriu um papel estratégico ao aproximar diferentes experiências formativas e fortalecer a discussão sobre os caminhos da educação médica no Nordeste. Segundo ele, um dos principais desafios atuais é transformar as diretrizes em práticas efetivas de formação voltadas às necessidades da população. “O nosso principal desafio é conseguir fazer uma formação médica que realmente prepare um profissional capaz de ajudar a população. Isso passa por operacionalizar as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), definir com clareza o perfil do egresso e construir estratégias que deem conta dessa complexidade”, afirmou.

Maciel também destacou a necessidade de rever os modelos avaliativos ainda predominantes nas escolas médicas, muitas vezes marcados por lógicas punitivas e excessivamente centradas em notas. “Precisamos caminhar para avaliações mais formativas, longitudinais e comprometidas com o desenvolvimento do estudante ao longo de toda a trajetória.”

A avaliação programática, aliás, apareceu como um dos principais eixos do congresso. O vice-coordenador docente da Regional Nordeste I da Abem e docente da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Rafael Carneiro Lélis observou que a discussão sobre avaliação está diretamente conectada à implementação das DCN e à responsabilidade social da formação médica. “O maior desafio que nós temos é buscar estratégias capazes de avaliar nossos estudantes de maneira consistente. Avaliar exige acompanhamento, trabalho em equipe e, sobretudo, feedback. É preciso compreender se aquilo que está sendo aprendido pode ser aplicado num contexto real de cuidado, especialmente dentro do Sistema Único de Saúde.”

Ao abordar os desafios da educação médica na região, Lélis também ressaltou a importância de ampliar os processos de escuta da comunidade e aproximar a formação médica das realidades sociais e sanitárias dos territórios. “Aprender com a comunidade é fundamental. A formação médica precisa nascer da escuta ativa e da construção coletiva para que possamos formar profissionais comprometidos com a sociedade.”

As discussões sobre as DCN estiveram presentes em diferentes mesas e trabalhos científicos apresentados ao longo do evento. A docente e coordenadora do internato da Universidade Federal de Sergipe, Rosana Cipolotti destacou o crescimento de pesquisas voltadas a novas metodologias de ensino, avaliação e inserção precoce dos estudantes nos serviços de saúde. Segundo ela, as novas diretrizes reforçam a centralidade do internato, da formação em atenção primária e do treinamento em urgência e emergência, ao mesmo tempo em que exigem currículos mais integrados e sustentados por evidências científicas. “A ideia é que os currículos e estratégias educacionais sejam organizados com base em evidências. Espera-se formar um médico tecnicamente preparado, mas também comprometido com ética, comunicação, humanidades e compreensão do seu papel social como trabalhador da saúde.”

Rosana alertou, entretanto, que a implementação das diretrizes esbarra em desafios estruturais importantes, como o aumento do número de escolas médicas, a insuficiência de cenários de prática e a necessidade de valorização da preceptoria e da docência. “Temos um grande desafio para atender às DCN nas condições concretas que o Brasil possui hoje. Isso envolve cenários de prática, formação docente, vagas de residência e qualificação dos preceptores.”

Também presente no debate, Humberto Castro Lima Filho, diretor da Regional Nordeste I da Abem e coordenador do curso de Medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, ressaltou que a discussão sobre qualidade da formação médica tornou-se ainda mais urgente diante da expansão acelerada de cursos e vagas no país. “Precisamos garantir uma formação conectada às necessidades de saúde da população. Ao mesmo tempo, existe uma preocupação crescente com a qualidade da educação médica e com a necessidade de processos mais adequados de regulação e acompanhamento.”

Além das discussões pedagógicas, o congresso abriu espaço para temas como saúde mental, inclusão, acessibilidade e permanência estudantil. Presidente discente do Conem e vice-coordenador discente da Regional Nordeste I da Abem, João Rodrigues Neto chamou atenção para as dificuldades enfrentadas por estudantes em situação de vulnerabilidade social ao longo dos seis anos de formação. “A permanência estudantil ainda é um dos grandes desafios da educação médica. Existem políticas importantes, mas elas ainda não conseguem alcançar todos os estudantes que precisam permanecer e concluir a graduação.”

Rodrigues também destacou o fortalecimento da participação estudantil nas discussões sobre as novas diretrizes e o impacto do Projeto Rever na ampliação do debate sobre educação médica na região. “A gente percebe hoje muito mais estudantes e docentes engajados nessas discussões. O congresso fortalece essa rede regional e aproxima as pessoas da Abem e do debate sobre formação médica.”

Para Ieda Aleluia, coordenadora docente da Regional Nordeste I da Abem, a implementação das DCN exige não apenas mudanças curriculares, mas também uma revisão mais profunda sobre os próprios sentidos da formação médica contemporânea. “Nosso desafio é integrar tecnologia, ética, humanismo e sensibilidade na formação de profissionais preparados para responder às mudanças sociais e às necessidades da população.”

Ela defendeu ainda uma educação menos fragmentada e mais aberta ao diálogo com as artes, as humanidades e as experiências coletivas. “Precisamos superar uma visão compartimentalizada da educação. O médico não pode ser apenas alguém tecnicamente preparado. É fundamental compreender que estamos lidando com seres humanos.” 

Para finalizar, o diretor-secretário da Abem, Aristides Palhares, ressaltou a importância de espaços coletivos de construção para o fortalecimento da educação médica brasileira. “A gente precisa de docentes, estudantes e gestores envolvidos nesse processo. O Conem é uma oportunidade de reunir pessoas dispostas a trocar experiências e construir uma educação médica de qualidade.”

Na mesma direção, Lia Silveira enfatizou que os debates do congresso reforçam a necessidade de reconhecer a educação como um campo científico próprio, que demanda formação específica, reflexão permanente e trabalho coletivo. “O ensino não pode ser improviso. Educação é ciência. Exige planejamento, metodologia, avaliação e profissionalização. Não basta ser um bom profissional para saber ensinar.”

Ela também destacou a importância das iniciativas conduzidas pela Abem para apoiar as escolas médicas na implementação das novas diretrizes, especialmente por meio do caderno de orientação construído no âmbito do Projeto Rever. “O caderno nasce justamente dessa necessidade de transformar as DCN em prática concreta. É um instrumento para que possamos pensar juntos como tirar essas diretrizes do papel e fortalecer uma formação médica comprometida com as necessidades de saúde da população.”

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