Abem encerra ciclo nacional do Projeto Rever com foco na implementação das novas DCN e anuncia Rever 2

Oficina Nacional reuniu mais de 400 participantes em Brasília, apresentou o Caderno de Implementação das novas DCN da medicina e anunciou uma nova etapa do Projeto Rever, voltada à residência médica e à formação de especialistas

A Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) realizou, nos dias 5 e 6 de maio, em Brasília (DF), a Oficina Nacional do Projeto Rever: Formação Médica para o Brasil. Reunindo mais de 400 participantes entre gestores, docentes, estudantes, preceptores, pesquisadores e representantes de instituições da saúde e da educação, o encontro marcou o encerramento da etapa 2026 do projeto e consolidou os debates realizados nas nove oficinas regionais promovidas ao longo de dois meses. Ao todo, o ciclo reuniu mais de 1.500 participantes em encontros realizados em Salvador, Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, Recife, Porto Alegre e Brasília, mobilizando escolas médicas, entidades da saúde, gestores públicos e movimentos estudantis em torno da implementação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de medicina.

Um dos principais resultados apresentados durante a oficina foi o lançamento do Caderno de Orientações para Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina 2025, elaborado a partir das contribuições construídas coletivamente ao longo das oficinas regionais. Presidente da Abem, Sandro Schreiber de Oliveira destacou que o material busca apoiar escolas médicas, docentes e estudantes na compreensão e aplicação das novas diretrizes. “O principal resultado deste trabalho é o caderno de implementação das diretrizes curriculares. A ideia é que esse material funcione como um texto base para estimular o debate e aprofundar a compreensão sobre os avanços presentes nas DCN de 2025 em direção ao fortalecimento da qualidade da formação médica brasileira”, afirmou.

Durante a oficina, Schreiber também anunciou a construção de uma nova etapa do projeto, batizada de Rever 2, que terá como foco central a residência médica e a formação de especialistas. “A gente está caminhando para formatar uma segunda etapa do Projeto Rever, em que a formação de especialistas, especialmente a residência médica, será um dos eixos principais. A perspectiva é contribuir com aprimoramentos na residência médica e na expansão da formação de especialistas no Brasil, assim como fizemos com as diretrizes curriculares e com o sistema de avaliação da graduação”, explicou.

Formação baseada em competências e responsabilidade social

O vice-presidente da Abem, Estevão Toffoli destacou que as novas DCN se estruturam a partir de dois grandes eixos: a formação baseada em competências e a responsabilidade social da educação médica. Segundo ele, a lógica da competência atravessa toda a construção das novas diretrizes e impacta diretamente os métodos pedagógicos, os processos de ensino-aprendizagem e os modelos de avaliação. “A ideia de competência orienta as diretrizes do início ao fim e se espera que ela também oriente a formação médica de maneira permanente. Isso tem consequências importantes para o desenvolvimento docente, para as ofertas pedagógicas e especialmente para os processos de avaliação programática”, afirmou.

O segundo eixo destacado pelo vice-presidente da Abem é o da responsabilidade social, entendida como compromisso da formação médica com as necessidades concretas da população brasileira e com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). “Essa lógica da responsabilidade social orienta toda a construção das relações com os serviços, das ofertas pedagógicas e das prioridades formativas. Ela parte do entendimento de que a formação médica precisa responder aos desafios do país e do sistema de saúde”, explicou.

A relação entre formação médica, território e necessidades sociais também apareceu na fala da representante do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Maria Cristina Sette, que destacou a diversidade dos municípios brasileiros e a urgência de formar profissionais preparados para atuar em diferentes realidades. “Temos uma quantidade imensa de municípios rurais e remotos, com difícil acesso e baixa conectividade, mas existe representação do Conselho em cada um dos 5.571 municípios brasileiros. Todos precisando de médicos e médicas com formação adequada”, afirmou.

Saúde digital e novos desafios da formação médica, como a avaliação longitudinal

Outro tema que ganhou destaque durante a oficina foi a incorporação da saúde digital às novas DCN da medicina. A Secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad defendeu que a saúde digital seja trabalhada de maneira transversal na formação médica, integrada aos processos de cuidado e à organização do SUS. “A saúde digital está presente nas novas diretrizes em uma lógica de transversalidade. Não se trata de criar mais uma disciplina ou departamento, mas de incorporar a saúde digital ao nosso modo de operar, de rever fluxos, processos e formas de ensinar”, afirmou.

Segundo Haddad, a transformação digital do SUS deve estar comprometida com a ampliação do acesso, a continuidade do cuidado e a defesa da soberania digital, sem subordinação às grandes plataformas tecnológicas. Haddad também defendeu que temas como proteção de dados, soberania digital e uso ético das tecnologias ocupem papel central nas discussões sobre formação médica e organização dos sistemas de saúde.

Já o secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Mozart Sales, defendeu o fortalecimento dos mecanismos de avaliação longitudinal durante a graduação médica e sua articulação com o acesso à residência médica. “Precisamos trabalhar o teste de progresso vinculado ao segundo, quarto e sexto anos. O Enamed precisa avançar no quarto e no sexto anos, mas também alcançar o segundo ano da graduação. É necessário construir uma lógica articulada com o Enare e compreender como isso vai impactar o acesso à formação de especialistas e as necessidades do país”, afirmou.

Regulação, qualidade da formação e enfrentamento ao negacionismo científico

Ao longo da abertura, diferentes participantes alertaram para os desafios relacionados à expansão dos cursos de medicina, sobretudo por meio de liminares judiciais, à implementação das novas diretrizes e à garantia de qualidade da formação médica. Representando o Conselho Nacional de Saúde (CNS), Francisca Valda da Silva afirmou que o país vive um cenário de crescente de abertura de escolas médicas, o que impacta na qualidade do ensino.  “Refletir sobre o ensino de medicina que queremos é fundamental. Não há saúde de qualidade sem médicos com boa formação.”

A diretora da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres/MEC), Marta Wendel Abramo, chamou atenção para os impactos da judicialização sobre os processos de regulação e avaliação dos cursos de medicina. “Os critérios definidos por especialistas da educação e da saúde estão sendo revisitados e redefinidos por juízes e advogados, que não são especialistas em formação médica”, afirmou. “O estudante tem direito de aprender e a sociedade tem direito de se consultar com profissionais bem formados, e isso não é conquistado à base de decisões liminares.” Abramo ressaltou ainda que os mecanismos de avaliação e supervisão são fundamentais para garantir que as instituições implementem efetivamente as novas diretrizes curriculares e mantenham padrões mínimos de qualidade na formação médica.

O debate sobre qualidade da formação também apareceu associado ao fortalecimento da ciência e do papel social das universidades. O diretor de Ensino, Pesquisa e Inovação da HU Brasil (antiga Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh), José Santana, alertou para o avanço do negacionismo científico e para a deslegitimação das instituições produtoras de conhecimento. “Estamos vendo uma deslegitimação progressiva e constante das instituições do conhecimento e da ciência. Por isso, é fundamental se abrir e procurar a sociedade para compartilhar o conhecimento produzido.”

Segundo Santana, as novas diretrizes curriculares ajudam a fortalecer uma formação médica comprometida com a responsabilidade social, com a produção científica e com a aproximação entre universidades e população, contribuindo para o enfrentamento à desinformação e ao negacionismo científico.

Reaquecimento do debate sobre educação médica

No encerramento da oficina, o vice-presidente da Abem destacou o papel do Projeto Rever em promover a retomada do diálogo entre escolas médicas, gestores públicos, estudantes e instituições responsáveis pela formulação das políticas de educação e saúde. “Um dos principais produtos que saem daqui é esse reaquecimento do debate. As pessoas se sentem pertencentes, envolvidas e percebem que estão contribuindo com a mudança da educação médica no Brasil”, afirmou.

Para Toffoli, a aproximação entre formação médica, gestão pública e sistema de saúde é fundamental para fortalecer a responsabilidade social da educação médica e garantir respostas mais efetivas às necessidades da população brasileira.

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