A Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) participou, entre os dias 4 e 7 de agosto, em Manila (Filipinas), do Congresso Internacional da The Network: Towards Unity for Health (TUFH). A entidade foi representada pelo presidente, Sandro Schreiber de Oliveira; pelo vice-presidente, Estevão Toffoli Rodrigues. O grupo brasileiro também contou com a participação do docente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor-executivo do Centro de Excelência da TUFH no Brasil, Fernando Menezes da Silva.
A participação brasileira levou ao encontro experiências relacionadas às transformações em curso na formação médica no país, especialmente a implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de 2025, os processos de avaliação da qualidade da formação e a responsabilidade social das escolas médicas.
Entre as atividades desenvolvidas pela comitiva esteve a oficina “Co-Creating Quality: An Interprofessional Dialogue on Social Accountability” (“Cocriando qualidade: um diálogo interprofissional sobre responsabilidade social”), conduzida por Fernando Menezes, Sandro Schreiber e Estevão Toffoli. A atividade partiu de uma pergunta central: como uma comunidade pode saber se uma escola de formação em saúde é realmente boa?
A provocação orientou uma discussão sobre os próprios critérios utilizados para avaliar a qualidade das instituições formadoras. A oficina destacou que indicadores tradicionalmente empregados, como desempenho dos estudantes, produção científica, cumprimento de requisitos de acreditação e carga horária curricular, dizem muito sobre as escolas, mas nem sempre permitem compreender os efeitos de sua atuação sobre as comunidades nas quais estão inseridas.
A proposta apresentada aos participantes foi avançar da responsabilidade social para a ideia de reciprocidade social, na qual escolas e comunidades participam conjuntamente da definição dos objetivos, processos formativos e resultados esperados. Nesse entendimento, a qualidade da formação também precisa considerar quem define as necessidades de saúde que orientam a instituição e quem pode avaliar se suas ações efetivamente produziram transformações para a população.
A discussão dialoga diretamente com as DCN de medicina de 2025, que reforçam a formação de profissionais capazes de atuar como agentes de transformação social, o envolvimento com diferentes grupos e comunidades e a integração da formação com o Sistema Único de Saúde (SUS). Durante a oficina, os participantes foram convidados a construir indicadores que pudessem ser não apenas observados pelas instituições, mas também verificados por atores externos e pelas próprias comunidades.
A metodologia permitiu discutir dimensões como o perfil dos estudantes admitidos e dos profissionais formados, os conteúdos e cenários de aprendizagem e a participação de diferentes atores nas decisões institucionais. O objetivo foi contribuir para a construção de indicadores interprofissionais e validados pelas comunidades, capazes de complementar instrumentos já existentes de avaliação da responsabilidade social das instituições formadoras.
Experiência brasileira e Projeto Rever
Além da oficina, a participação da Abem permitiu apresentar internacionalmente experiências desenvolvidas no Brasil a partir do Projeto Rever – Formação Médica para o Brasil, iniciativa que mobilizou escolas médicas e diferentes atores da educação e da saúde em torno da implementação das novas DCN.
Para Sandro Schreiber, a presença da Associação no congresso possibilitou compartilhar o trabalho desenvolvido no país e, ao mesmo tempo, ampliar o diálogo com instituições e especialistas de diferentes partes do mundo.
“A participação da Abem foi importante para apresentar as experiências que estamos construindo no Projeto Rever, especialmente em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais, aos critérios de avaliação e à responsabilidade social das escolas médicas”, afirma.
Segundo o presidente, as discussões realizadas em Manila reforçam um dos desafios centrais da educação médica contemporânea: fazer com que a qualidade da formação seja compreendida também a partir de sua capacidade de responder às necessidades de saúde das populações e dos territórios.
Articulação internacional e próximo encontro no Brasil
A agenda da Abem nas Filipinas também incluiu a participação em reuniões da direção e na Assembleia Geral da TUFH, espaços em que foram discutidas estratégias e prioridades da rede para os próximos anos.
Os representantes brasileiros participaram ainda de reuniões relacionadas à organização do próximo congresso da TUFH, que será realizado em 2027, no Recife (PE). A Abem participa da organização do encontro ao lado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS).
A realização da próxima edição no Brasil amplia as possibilidades de intercâmbio entre experiências nacionais e internacionais e dá continuidade às articulações fortalecidas em Manila. A própria oficina realizada neste ano prevê que os participantes testem os indicadores construídos em suas instituições e retomem a discussão como grupo de trabalho interprofissional antes do encontro de 2027.
“Foi uma participação muito produtiva, tanto pelas trocas de experiências quanto pela ampliação das nossas redes e pelo fortalecimento da presença da Abem no cenário internacional. Esse diálogo é fundamental para avançarmos na construção de uma formação médica socialmente responsável e comprometida com as necessidades das comunidades”, conclui Sandro.