Competências profissionais mais definidas, atenção às populações vulneráveis, fortalecimento da saúde mental dos estudantes, uso de tecnologias, avaliação contínua da aprendizagem e investimento na formação pedagógica dos professores. As novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de medicina representam um novo capítulo na formação médica brasileira e procuram preparar os futuros profissionais para os desafios do século XXI.
As DCN 2025 preservam princípios construídos ao longo das últimas décadas, mas incorporam demandas que ganharam força nos debates mais recentes sobre educação médica. O documento amplia o detalhamento das competências esperadas dos egressos, fortalece o compromisso com a inclusão, aprimora a organização do internato e estabelece novas responsabilidades para as instituições de ensino no acompanhamento da trajetória acadêmica e do bem-estar dos estudantes.
Para o diretor-secretário da Abem, Aristides Palhares, a atualização das diretrizes responde às transformações vividas pela sociedade e pela própria prática médica. “Pela primeira vez, a saúde mental, física e social dos estudantes aparece de forma explícita nas diretrizes. As escolas médicas passam a ser responsáveis por desenvolver políticas permanentes de promoção do bem-estar discente, prevenção de agravos e oferta de intervenções precoces quando necessário“, resume.
Entre as principais novidades está a definição de 27 competências essenciais para o exercício da medicina, organizadas de forma a integrar conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para uma prática ética, segura e comprometida com o cuidado integral em saúde. As novas DCN também estabelecem a responsabilidade das instituições de ensino em promover ambientes formativos acessíveis e equitativos, contemplando diferentes perfis e necessidades estudantis, incluindo populações vulnerabilizadas, pessoas neurodivergentes e neuroatípicas.
Outra inovação é a criação do Núcleo de Apoio Pedagógico e Experiência Docente (Naped), estrutura voltada à formação continuada dos educadores-docentes e preceptores e ao desenvolvimento das competências pedagógicas exigidas pela educação médica contemporânea.
O documento também amplia o detalhamento do internato e incorpora a avaliação programática, modelo que prevê acompanhamento contínuo do desenvolvimento dos estudantes ao longo da graduação, com feedback sistemático e foco na construção progressiva das competências profissionais.
Da influência de modelos estrangeiros à construção de um projeto nacional
Embora representem uma atualização importante, as DCN de 2025 não surgiram de forma isolada. Elas são resultado de um processo de transformação iniciado há mais de duas décadas e refletem um projeto de formação médica construído coletivamente para responder às necessidades da população brasileira e fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS).
Foi justamente essa trajetória que Aristides Palhares apresentou durante o 3º Congresso Nordestino de Educação Médica (Conem), realizado em maio deste ano. Ao recuperar a história das Diretrizes Curriculares Nacionais, o diretor da Abem mostrou como a formação médica brasileira deixou de reproduzir modelos importados para construir, gradualmente, um projeto alinhado à realidade do país.
A história da educação médica no Brasil começou em 1808, com a criação das primeiras escolas de Medicina. Durante boa parte dos séculos XIX e XX, entretanto, o ensino foi fortemente influenciado por modelos europeus e, mais tarde, norte-americanos.
Segundo Palhares, durante muito tempo a formação médica brasileira reproduziu referências externas sem considerar plenamente as especificidades do país. “Nós não tínhamos uma preocupação autenticamente brasileira quanto a esse processo. Não havia a discussão daquilo que é importante para cada região do Brasil, para cada situação do nosso país.”
Essa lógica se refletia na própria organização dos cursos. Em 1969, a criação do currículo mínimo estabeleceu uma estrutura comum para as graduações em medicina, baseada em um conjunto de disciplinas consideradas essenciais para a formação profissional. Embora tenha representado um avanço ao criar parâmetros nacionais, o modelo mantinha currículos rígidos e pouco dialogava com as diferentes realidades regionais ou com as necessidades do sistema de saúde brasileiro.
Nesse cenário, a criação da Abem, em 1962, consolidou um espaço permanente de discussão sobre a qualidade da formação médica e sobre as políticas educacionais voltadas ao setor. Desde então, a associação passou a participar das principais discussões relacionadas ao ensino médico no país.
Ao longo das décadas seguintes, especialmente nos anos 1980 e 1990, o debate sobre a necessidade de mudanças ganhou força. As discussões impulsionadas pela 8ª Conferência Nacional de Saúde e pelos trabalhos da Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação da Educação Médica (Cinaem) prepararam o terreno para uma mudança que alteraria profundamente a forma de pensar a formação médica no Brasil.
A primeira ruptura
As primeiras Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de medicina, publicadas em 2001, marcaram uma mudança de paradigma.
Pela primeira vez, um documento nacional definiu de forma explícita qual deveria ser o perfil do médico formado no país: um profissional generalista, humanista, crítico e reflexivo, preparado para atuar em diferentes níveis de atenção à saúde e comprometido com princípios éticos, responsabilidade social e cidadania. Mais do que estabelecer um novo perfil profissional, as diretrizes ampliaram a compreensão sobre o papel social da medicina.
Segundo Palhares, esse foi o momento em que a formação médica começou a abandonar uma lógica centrada exclusivamente na doença e no conhecimento biomédico. “Neste primeiro momento, as DCN mudam o paradigma de uma formação médica flexneriana, ou seja, focada no tripé médico-biologia e saúde para o binômio saúde-doença, trazendo a dimensão individual para a dimensão do coletivo”, explica.
As diretrizes de 2001 também buscaram superar características históricas da educação médica brasileira, como os currículos excessivamente rígidos e o predomínio de metodologias tradicionais de ensino. Em seu lugar, propuseram uma formação baseada em uma visão mais ampla do processo saúde-doença, na valorização da dimensão coletiva da saúde, em currículos mais flexíveis e na adoção de metodologias ativas de aprendizagem.
Apesar dos avanços, a implementação das novas diretrizes ocorreu sem um processo nacional estruturado de orientação às escolas médicas. Para Palhares, essa ausência dificultou tanto a incorporação das mudanças propostas quanto a avaliação dos resultados alcançados.
O SUS passa a ocupar o centro da formação
Treze anos depois, as Diretrizes Curriculares Nacionais voltaram a ser revisadas. Publicadas em 2014, elas aprofundaram as mudanças iniciadas na versão anterior e reforçaram a aproximação entre a formação médica e as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
Influenciadas pelo contexto político da época e pelas discussões sobre o fortalecimento do sistema público de saúde, as novas diretrizes consolidaram os serviços do SUS como ambiente privilegiado para a formação dos futuros médicos. A saúde passou a ser compreendida de forma ainda mais ampla, incorporando dimensões históricas, sociais, culturais e humanísticas ao processo de ensino.
A organização curricular também foi reformulada. A formação médica passou a ser estruturada em três grandes áreas: atenção integral à saúde, educação em saúde e gestão em saúde, reforçando a ideia de que o exercício da medicina exige não apenas domínio técnico, mas também capacidade de atuar em equipe, compreender os processos de gestão e desenvolver ações educativas junto à população.
Outro avanço importante foi o fortalecimento do internato. As diretrizes estabeleceram parâmetros mais claros para a carga horária e para os campos de prática, determinando que os estudantes vivenciassem experiências na Atenção Básica e nos serviços de urgência e emergência do SUS.
O perfil do egresso também foi aprimorado. Além da formação geral, humanista, crítica, reflexiva e ética já prevista nas diretrizes anteriores, o documento reforçou a importância de compreender os determinantes sociais do processo saúde-doença e do compromisso com a promoção da saúde integral da população.
Assim como havia ocorrido em 2001, porém, a publicação das novas diretrizes não foi acompanhada de um processo nacional estruturado de implementação. As escolas médicas precisaram conduzir as mudanças de forma bastante heterogênea, o que dificultou uma avaliação mais abrangente sobre os impactos das transformações propostas.
Uma construção coletiva para responder aos desafios do século XXI
O processo que resultou nas DCN de 2025 começou em um contexto diferente. Durante o 61º Congresso Brasileiro de Educação Médica (Cobem), realizado em Fortaleza, em 2023, o então presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, Luiz Roberto Liza Curi, anunciou a intenção de revisar as diretrizes dos cursos de medicina.
O prazo reduzido para elaborar o novo documento mobilizou instituições de ensino, pesquisadores, docentes, estudantes e entidades de todo o país, que passaram a discutir coletivamente quais competências seriam necessárias para a formação médica nas próximas décadas.
Na avaliação de Palhares, essa nova versão preserva os princípios construídos ao longo dos últimos 25 anos, mas amplia o olhar sobre temas que ganharam relevância na sociedade contemporânea. “Agora o foco muda um pouco, ênfase nas populações vulneráveis, nas avaliações dos estudantes e em proporcionar uma formação mais adequada para o século XXI, trazendo mais tecnologia, preocupação com saúde mental e com sustentabilidade“, afirma.
Para além da atualização curricular, as DCN de 2025 procuram oferecer maior clareza às escolas médicas sobre o que se espera da formação dos futuros profissionais. O detalhamento das competências, a valorização da formação docente, a institucionalização de políticas de apoio aos estudantes e a adoção da avaliação programática refletem uma preocupação crescente com a qualidade dos processos formativos e com o acompanhamento permanente da aprendizagem.
O papel da Abem
A construção das novas diretrizes contou com participação ativa da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem). Por meio do Projeto Rever – Formação Médica para o Brasil, a entidade coordenou uma ampla mobilização nacional para discutir os rumos da educação médica e formular propostas que subsidiassem a revisão das DCN.
Lançado em 2023 com apoio do Ministério da Saúde, do Ministério da Educação (MEC) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o projeto promoveu oficinas nacionais e regionais, reuniões técnicas, estudos e publicações que reuniram contribuições de docentes, estudantes, gestores e pesquisadores de diferentes regiões do país.
Mais do que participar da elaboração do documento, a Abem defende que o desafio agora é garantir que as diretrizes saiam do papel.
Segundo Palhares, a experiência acumulada ao longo das últimas décadas mostrou que a publicação de um novo marco normativo, por si só, não assegura mudanças na formação médica. “Se as versões de 2001 e 2014 foram marcadas pela ausência de estratégias estruturadas de apoio às escolas médicas, a etapa atual busca justamente transformar os princípios das DCN em práticas concretas de formação”, defende.
Para ele, esse talvez seja o principal diferencial do momento atual. Se as primeiras diretrizes representaram mudanças importantes na concepção da formação médica e as revisões posteriores aprofundaram esse movimento, o desafio agora é garantir que os avanços previstos no documento se traduzam em transformações efetivas dentro das escolas de Medicina.
Mais do que uma sequência de documentos normativos, a trajetória das Diretrizes Curriculares Nacionais revela a construção gradual de um projeto de formação médica voltado às necessidades da população brasileira. Um processo que deixou para trás a reprodução de modelos estrangeiros para consolidar uma formação comprometida com a realidade do país, com o fortalecimento do SUS e com os desafios que a Medicina enfrenta no século XXI.
Acesse aqui o caderno de orientações para a implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais
Acesse aqui os relatórios do Projeto Rever 2026
Acesse aqui o documento imagético de apoio para desenvolvimento docente: Avaliação Programática na Formação Médica