X Coemco debate interiorização, IA e desafios da residência médica na formação médica brasileira

O X Congresso de Educação Médica do Centro-Oeste (Coemco) reuniu docentes, estudantes, gestores, preceptores, residentes e pesquisadores para discutir os principais desafios da formação médica brasileira na atualidade nos dias 22 e 23 de maio, em Goiânia. Com o tema “Educação Médica Inovadora e Popular para a Transformação Social do Centro-Oeste”, o evento promoveu debates sobre interiorização do ensino, residência médica, inclusão, inteligência artificial e implementação das DCN, consolidando-se como um espaço estratégico de reflexão coletiva para a região.

Para o diretor da Regional Centro-Oeste da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), José Eduardo Baroneza, o congresso cumpriu um papel fundamental ao aproximar experiências distintas de formação médica presentes na região. Segundo ele, a interiorização do ensino médico segue como um dos principais desafios enfrentados atualmente, especialmente em territórios marcados por desigualdades de acesso e permanência de profissionais. “A formação médica no Centro-Oeste envolve realidades muito diferentes entre si. Nós temos experiências em áreas de fronteira, regiões ribeirinhas, territórios de floresta e grandes centros urbanos. Discutir interiorização significa pensar como formar médicos, qualificar equipes e fixar profissionais nesses diferentes contextos. O Coemco traz justamente essa possibilidade de integração, de troca entre experiências bem-sucedidas e de construção coletiva de caminhos para qualificar a educação médica na região”, afirmou Baroneza.

Baroneza também destacou o caráter agregador do congresso, que reuniu mais de cinco dezenas de palestrantes dos estados do Centro-Oeste e centenas de congressistas em rodas de conversa, mesas-redondas e apresentações de trabalhos científicos. “Esperamos que os participantes retornem para suas universidades, ambulatórios e cursos inspirados a continuar qualificando a educação médica. O principal impacto de um encontro como esse é justamente fortalecer vínculos, potencializar afinidades e ampliar as possibilidades de colaboração entre pessoas que compartilham dos mesmos desafios”, completou.

A presidente docente do X Coemco, Ana Maria de Oliveira, ressaltou que a proposta metodológica do congresso  foi pensada para privilegiar o diálogo horizontal e a construção coletiva do conhecimento, aproximando educadores e educandos em espaços de escuta e compartilhamento de experiências. “Quando nos sentamos em roda, olhando uns para os outros, compartilhando nossos fazeres, nossas dificuldades e possibilidades de resolução, nós nos envolvemos de forma muito mais profunda com os problemas da educação médica. Esse tipo de encontro nos toca, nos engaja e faz com que as pessoas retornem aos seus territórios querendo transformar suas realidades”, destacou Ana Maria.

A diretora-tesoureira da Abem, Denise Herdy, enfatizou a importância histórica da regional Centro-Oeste na manutenção de espaços permanentes de debate sobre educação médica e destacou o caráter estratégico do congresso na região que abriga o Distrito Federal, centro das decisões políticas relacionadas às áreas da saúde e da educação. “Estar próximo desses espaços de decisão é fundamental para que a educação médica seja ouvida e para que possamos construir políticas mais adequadas às necessidades do país. A força coletiva e a reverberação desses encontros é que podem nos direcionar para soluções mais consistentes”, concluiu.

Segundo Denise, a organização do evento priorizou formatos mais inclusivos e participativos, especialmente por meio das rodas de conversa, para discutir temas emergentes da educação médica brasileira. “Os diagnósticos sobre muitos problemas da educação médica já estão feitos. O desafio é pensar como avançar a partir deles. As rodas de conversa ajudam justamente ao criar espaços protegidos de reflexão coletiva, onde diferentes atores podem construir consensos, compartilhar experiências e pensar possibilidades concretas de transformação”, pontuou.

Residência médica e os desafios da formação especializada

Entre os temas que mobilizaram os participantes durante o congresso, a residência médica apareceu como uma das principais preocupações. Presidente discente do X Coemco, Thalles Eduardo Ribeiro destacou que o crescimento acelerado do número de cursos de medicina e de formandos tem ampliado as tensões em torno do acesso à especialização. “A preocupação com as provas de residência médica tem sido um dos assuntos mais discutidos entre os estudantes. O aumento do número de cursos e de pessoas se formando trouxe novos desafios para a formação especializada. Por isso foi tão importante trazer esse debate para o congresso e discutir questões que muitas vezes ficam restritas aos corredores das faculdades”, afirmou Ribeiro.

O estudante também destacou a importância de pensar em inovação para além das tecnologias digitais. “Quando falamos em educação inovadora, não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando também da capacidade de inovar dentro dos próprios contextos locais e de construir uma educação médica voltada às populações historicamente negligenciadas”, acrescentou.

O debate sobre residência médica também foi aprofundado por Daniel Felix, coordenador médico residente da regional Centro-Oeste, que chamou atenção para as transformações vividas atualmente pelos programas de especialização no país e para a necessidade de ouvir quem participa diretamente desse processo. “A residência médica continua sendo o padrão ouro da formação de especialistas no Brasil. Mas estamos atravessando um período de muitas transformações e desafios importantes, que vão desde a sobrecarga dos residentes até questões relacionadas à saúde mental, supervisão e condições de formação. Pensar soluções para esses problemas é uma responsabilidade coletiva que envolve residentes, preceptores, docentes e estudantes”, afirmou.

Para Felix, escutar os residentes é fundamental para compreender os dilemas concretos vividos atualmente nos programas de formação. “A realidade da residência hoje é muito diferente daquela vivida há 10, 20 ou 30 anos. Pensar o futuro da educação médica exige reconhecer essas mudanças, aprender com os erros do passado e construir processos formativos mais qualificados, mais humanos e alinhados às necessidades contemporâneas”, destacou.

Inteligência artificial e os desafios éticos da formação médica

O avanço da inteligência artificial na medicina foi outro eixo central do congresso. Para o diretor do Instituto Educater e avaliador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Paulo Marcondes, a incorporação das tecnologias digitais à formação médica é inevitável, mas exige reflexão crítica, letramento tecnológico e compromisso ético. “O grande desafio não é apenas utilizar essas ferramentas, mas entender como utilizá-las corretamente. A IA não pode ser vista como um oráculo. É necessário compreender suas potencialidades, seus limites e os riscos de uma utilização acrítica”, afirmou.

Segundo Marcondes, a escola médica precisa decidir qual perfil profissional deseja formar diante das transformações tecnológicas em curso. “Queremos formar médicos que apenas reproduzam protocolos ou profissionais capazes de pensar criticamente, compreender as limitações das tecnologias e assumir responsabilidade pelo cuidado? Existem dimensões humanas da relação médico-paciente que nenhuma inteligência artificial será capaz de substituir. O cuidado envolve sensibilidade, escuta, ética e responsabilidade”, destacou.

Nesta mesma direção, o presidente de honra do X Coemco, Celmo Celeno Porto, também defendeu que a tecnologia contribui para aprimorar o cuidado em saúde, mas jamais substituirá a dimensão humana da medicina. “A interferência da inteligência artificial é inevitável e irreversível, mas ela não substitui aquilo que constitui o núcleo luminoso da prática médica, que é a relação entre médico e paciente. O sucesso de um médico não depende apenas da sua formação científica, mas da sua capacidade de ouvir, acolher e compreender o paciente e sua família. A tecnologia pode ajudar a organizar informações e melhorar o atendimento, mas não substitui a presença humana no cuidado”, afirmou.

Leonardo Pinheiro, delegado educando da regional centro-oeste da Abem, reforçou a importância de debater o uso da inteligência artificial na formação médica, especialmente diante do crescimento acelerado dessas ferramentas no cotidiano acadêmico e profissional. “Muitas instituições e professores ainda não tiveram contato efetivo com ferramentas de inteligência artificial aplicadas à prática médica. Discutir como utilizá-las de forma responsável e eficiente é fundamental para a formação dos médicos do século XXI”, afirmou.

O discente também alertou para a necessidade de cuidado com dados sensíveis e com a aplicação prática das informações produzidas pelas plataformas digitais. “A inteligência artificial consegue reconhecer padrões, organizar informações e até contribuir para uma anamnese mais estruturada, mas ela ainda não substitui o olhar clínico. O maior desafio é justamente filtrar as informações, compreender seus limites e garantir que esses dados sejam utilizados de forma ética e segura”, pontuou.

Inclusão e diversidade na educação médica

A inclusão de pessoas com deficiência na formação médica também esteve entre os temas debatidos no congresso. Vitória Alves Caetano, coordenadora discente da regional Centro-oeste destacou a necessidade de enfrentar visões ultrapassadas sobre acessibilidade e permanência estudantil nas universidades. “Ainda temos uma sociedade muito marcada por valores antigos e por uma ideia de normalidade que já não corresponde à realidade atual. Precisamos compreender que pessoas com deficiência existem, ocupam os espaços universitários e têm direito de permanecer neles. Defender acessibilidade não é criar conflito, é garantir um direito legítimo”, afirmou.

Vitória também defendeu uma formação médica mais humanizada e comprometida com diferentes trajetórias de aprendizagem. “Não existe uma única linha de partida ou de chegada. O mais importante é garantir que a formação produza profissionais tecnicamente competentes e humanizados. Espero que coordenadores e docentes saiam daqui refletindo sobre isso e pensando em mudanças possíveis dentro das suas instituições”, concluiu.

Homenagem a Celmo Celeno Porto

A cerimônia de abertura homenageou  o professor Celmo Celeno Porto, reconhecido por sua trajetória e contribuições à educação médica brasileira e por sua colaboração para consolidar a Regional Centro-Oeste da Abem como seu primeiro coordenador. Durante o momento, foi destacada sua atuação na criação e fortalecimento de espaços de reflexão sobre o ensino médico, além de sua contribuição para a formação de gerações de docentes e profissionais da saúde. 

Ao agradecer o reconhecimento, Celmo ressaltou o papel histórico da Abem na qualificação da docência médica e defendeu que a entidade continue liderando os debates sobre os desafios contemporâneos da formação em saúde. “A Abem teve um papel fundamental ao oferecer oportunidades para que médicos se tornassem melhores professores. Agora, acredito que chegou o momento de a entidade, com toda a sua capacidade de renovação, assumir também um papel de protagonismo nesse período de transição marcado pela incorporação da inteligência artificial à educação e à prática médica. Se soubermos conduzir esse processo com responsabilidade, poderemos oferecer uma formação ainda melhor e uma medicina cada vez mais qualificada para a população”, afirmou.

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