XII CRENEM debate diversidade territorial, social e os desafios da formação médica

Realizado em Macapá (AP), o XII Congresso da Região Norte de Educação Médica (Crenem) reuniu docentes, estudantes, pesquisadores e gestores nos dias 19 e 20 de junho para discutir os caminhos da formação médica diante das particularidades da Amazônia. Com o tema “Desafios da Formação Médica na Amazônia Brasileira: Território, Diversidade e Transformação Social”, a programação foi estruturada em três eixos temáticos: Território, Diversidade e Determinantes da Saúde na Formação Médica; Ensino Médico, SUS e Redes de Atenção em Áreas de Difícil Acesso; e Inovação Pedagógica, Tecnologias e Sustentabilidade na Educação Médica Amazônica,  que nortearam os debates ao longo dos dois dias.

A escolha do tema dialoga diretamente com os desafios da Região Norte, marcados pela vasta extensão territorial, pelas áreas de difícil acesso, pela diversidade étnica, cultural e social, pelos determinantes socioambientais e climáticos e pela organização das redes de atenção à saúde. Nesse contexto, o congresso também promoveu reflexões alinhadas às novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de medicina.

Para Alessandra Ribeiro, diretora de Inovação da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), os congressos regionais cumprem um papel que vai além da produção científica. “São eventos estratégicos que possibilitam não apenas a produção do conhecimento, mas, principalmente, a troca de aprendizados, experiências e vivências que acontecem tanto nas instituições de ensino, quanto nos espaços de cuidado à saúde.” afirmou.

Essa visão também foi reforçada pelo ex-presidente da Abem e docente na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Nildo Alves Batista, que destacou a expansão das escolas médicas em paralelo com a qualidade da formação. Para ele, além do crescimento do número de cursos, é fundamental que cada escola esteja comprometida com sua realidade local, formando profissionais capazes de atuar como agentes de transformação social.  “É um país com mais de 500 escolas médicas, e um dos grandes desafios é conciliar a expansão quantitativa que ocorreu com a qualidade necessária para garantir uma formação ética, científica rigorosa e socialmente comprometida.” destaca. 

Amazônia como protagonista da educação médica 

Ao longo do congresso, um dos consensos entre os participantes foi que a Região Norte não deve ser vista apenas como um espaço de aplicação de modelos desenvolvidos em outras partes do país, mas como protagonista na produção de conhecimento em educação médica. 

Na avaliação da diretora da regional norte da Abem, Luciana Brandão, a região é estratégica não apenas para a Abem, mas também para o Sistema Único de Saúde (SUS), por possibilitar o alcance de territórios remotos, historicamente marcados por desigualdades de acesso, escassez de profissionais e fragilidade de infraestrutura. “No âmbito da formação de médicos e de profissionais da saúde de uma maneira geral, ainda são poucas as vivências nesses contextos específicos, que requer competências que extrapolam o escopo urbano de práticas, como a competência intercultural e a coordenação do cuidado.” destacou.

Além da formação voltada às especificidades do território amazônico, outro tema recorrente foi a saúde mental e a permanência estudantil nos cursos de medicina. Luciana chamou atenção para fatores que impactam diretamente a trajetória dos estudantes, como dificuldades financeiras, grandes distâncias geográficas, isolamento, falta de suporte emocional e as desigualdades vividas por estudantes indígenas, quilombolas e ribeirinhos. 

A discussão também contemplou os desafios impostos pelas novas DCN. Para a presidente de honra do Crenem, Maribel Nazaré, a vasta extensão territorial da Amazônia e sua diversidade populacional, composta por povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais, exigem uma formação médica alinhada às necessidades da região. “Trazer atualizações sobre essas temáticas e ampliar a discussão junto à comunidade acadêmica é fundamental para formar médicos competentes para atuar na realidade de sua região, sendo capazes de transformar realidades e contribuir para reduzir desigualdades.” afirmou.

Imersão no Quilombo do Curiaú fortalece a aprendizagem na prática

Entre as atividades do congresso, o projeto “Vivência no Quilombo do Curiaú: entrelaçamentos entre cultura, território e saúde na Amazônia”, sob o slogan “A Educação Médica com Identidade Amazônica”, proporcionou aos participantes uma imersão no território ao visitar a comunidade quilombola. A experiência aproximou docentes, estudantes e profissionais da cultura local, permitindo compreender, na prática, como território, ancestralidade e determinantes sociais influenciam o cuidado em saúde e a formação médica. 

Para o vice-coordenador discente da regional Norte da Abem, Carlos Vitor Miranda, essa experiência permitiu compreender, na prática, como os conceitos debatidos durante o congresso se manifestam no cotidiano das populações amazônicas. “Muitas vezes falamos sobre determinantes sociais da saúde dentro das salas de aula, mas experiências como essa nos permitem enxergar esses determinantes nas histórias reais das pessoas. A vivência nos convida a sair da posição de quem apenas observa e nos coloca diante da responsabilidade de escutar, compreender e respeitar diferentes modos de viver e de entender o mundo.” ressaltou.

Mais do que promover debates, o XII Crenem consolidou-se como um espaço de construção coletiva em torno dos desafios e das potencialidades da educação médica na Região Norte. Ao valorizar os saberes dos territórios, a diversidade de seus povos e a integração entre ensino, serviço e comunidade, o encontro reforçou o compromisso da Abem com uma formação médica de qualidade, socialmente referenciada e alinhada às necessidades do Sistema Único de Saúde.

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