O Congresso reuniu diferentes gerações da educação médica brasileira e convidados internacionais para discutir formação, avaliação, inovação e compromisso com as necessidades da sociedade_
Começou na última quinta-feira, de setembro, em Porto Alegre (RS), o 64º Congresso Brasileiro de Educação Médica (Cobem). Maior encontro promovido pela Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), o Congresso reúne até domingo cerca de 1500 pessoas entre estudantes, docentes, pesquisadores, gestores, profissionais da saúde e convidados nacionais e internacionais para quatro dias de debates, troca de experiências e construção coletiva sobre os caminhos da formação médica no Brasil.
Para o vice-presidente da Abem, Estevão Toffoli, o Cobem ocupa um lugar especial justamente por concentrar a diversidade de experiências que atravessa a educação médica. Ele define o Congresso como “nossa maior festa, nosso maior encontro e nosso maior espaço de produção intelectual coletiva”.
Sediado neste ano pela Regional Sul I, o 64º Cobem também é uma oportunidade para que participantes de diferentes regiões do país conheçam mais de perto a produção acadêmica, as experiências e a cultura do Sul. “O Cobem, tradicionalmente, é um momento de encontro, de afeto e solidariedade. É quando nos reunimos para discutir, coletivamente, os caminhos da formação médica no Brasil e no mundo. Toda a programação foi pensada para favorecer essas trocas. Recebemos professores, estudantes e profissionais de todo o país de maneira muito calorosa, como é hábito de nós, gaúchos, e gostaríamos de proporcionar nestes dias uma oportunidade de muitas partilhas”, afirma Francisco Jorge Arsego de Oliveira, diretor da Regional Sul I e presidente do 64º Cobem.
Na abertura, o presidente da Abem, Sandro Schreiber de Oliveira, destacou o caráter coletivo do Congresso e a aproveitou para se despedir da presidência da Abem. “Este Cobem tem um significado muito especial para mim, porque é o último que vivo como presidente. Foram anos de muito trabalho, aprendizado e, sobretudo, de encontros com pessoas que acreditam na educação médica como instrumento de transformação. Chegar a Porto Alegre e ver tanta gente reunida, de diferentes regiões do Brasil e de outros países, é também uma forma de celebrar essa trajetória e de dar as boas-vindas para a nova gestão”, declarou Schreiber.
Educação médica para responder às necessidades da sociedade
O compromisso da formação médica com o Sistema Único de Saúde e com o enfrentamento das desigualdades esteve entre os temas que marcaram o primeiro dia. Felipe Proenço de Oliveira, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), do Ministério da Saúde, defendeu que a responsabilidade social das escolas médicas deve ser percebida concretamente nos territórios em que estão inseridas. “A formação médica precisa estar comprometida com o enfrentamento das desigualdades”, afirmou. Para ele, as escolas precisam considerar não apenas a graduação, mas os impactos que produzem na vida da população e no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
O secretário também destacou a parceria entre o Ministério da Saúde e a Abem no projeto Rever, voltado ao aprimoramento da formação médica e que envolve dimensões como avaliação, Teste de Progresso e implementação das diretrizes dos cursos de medicina. Segundo Proenço, a capacidade da Associação de promover o diálogo entre coordenadores, professores e estudantes é uma das razões para o apoio à iniciativa.
Trocas que atravessam fronteiras
A presença internacional também marcou a abertura do congresso e reforçou o movimento de ampliação do diálogo da Abem com instituições e especialistas de outros países.
Um dos convidados foi o professor da Universidade de Maastricht, Cees van der Vleuten, referência internacional em avaliação na educação médica. Ao falar sobre sua primeira experiência no Cobem, ele ressaltou a importância dos encontros presenciais para que evidências produzidas pela pesquisa possam efetivamente transformar as práticas educacionais.
Para Van der Vleuten, reunir pessoas, conhecer experiências e aprender com outros profissionais é fundamental para produzir mudanças. O professor afirmou estar particularmente impressionado com o Congresso como espaço de intercâmbio e inovação na educação médica.
A avaliação programática foi outro dos temas em destaque. Joyce Grull, também da Universidade de Maastricht, abordou a mentoria nesse modelo de avaliação e chamou atenção para a possibilidade de integrar a educação baseada em competências à formação. Segundo ela, os médicos precisam desenvolver, além do conhecimento técnico, competências relacionadas à comunicação e à colaboração.
Liesbeth Baartman também compartilhou experiências internacionais sobre a implementação da avaliação programática e destacou as possibilidades abertas pela aproximação com educadores brasileiros. “Nosso intercâmbio poderia funcionar muito bem por ampliar a troca de experiências em educação médica, avaliação programática, ao mesmo tempo em que permite construir aprendizados a partir da experiência brasileira”, afirmou.
Champion N. Nyoni, do Escritório Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a África Champion, trouxe para o Cobem a perspectiva africana sobre os desafios da formação em saúde. Em sua participação, destacou que apenas ampliar o número de profissionais formados não é tão necessário quanto pensar sobre onde, como e por quem eles são formados, garantindo que esse processo esteja alinhado às necessidades dos sistemas de saúde e das comunidades. “Precisamos voltar à conversa inicial de entender o que nossa comunidade precisa. Uma vez que temos isso claro, desenhamos currículos e programas adequados a essas necessidades”, afirmou. Para Nyoni, questões como equidade, justiça e responsabilidade passam a ocupar um lugar central quando a formação parte das demandas concretas das populações.
Em sua primeira participação no Cobem e pela primeira vez na América do Sul, Nyoni disse estar impressionado com o volume e a qualidade dos trabalhos apresentados e com o foco das discussões. O professor também destacou o potencial de ampliar o intercâmbio internacional promovido pelo Congresso. “Esta é uma conferência realmente importante e eu adoraria vê-la crescer para além do Brasil, com mais convidados de diferentes partes do mundo”, disse.
Celebração e reconhecimento
A cerimônia de abertura também reservou espaço para celebrar trajetórias construídas dentro da Abem. Foi realizada a formatura das primeiras turmas dos cursos de Especialização em Desenvolvimento de Competências Pedagógicas para Preceptores e Docentes e de Gestão da Escola Médica.
Outro momento foi dedicado à institucionalização da Medalha Abem “Mérito em Educação Médica Paulo Freire”, criada para reconhecer contribuições relevantes à educação médica.
A noite terminou com a conferência de abertura sobre avaliação programática, conduzida por Cees van der Vleuten e Liesbeth Baartman, com mediação de Sandro Schreiber de Oliveira, e apresentação artística do músico Philipe Franca Philippsen, o Gaiteiro do Brique.