Congresso destacou avaliação programática, novas Diretrizes Curriculares Nacionais, formação para o SUS, tecnologia e internacionalização da educação médica
A Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) reuniu, entre os dias 17 e 20 de setembro, em Porto Alegre (RS), especialistas, docentes, estudantes, pesquisadores, preceptores, residentes, gestores e representantes de instituições nacionais e internacionais para o 64º Congresso Brasileiro de Educação Médica (Cobem). Realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o encontro teve como tema “Diretrizes da Educação Médica: Avaliação e Qualidade a Serviço de Toda a Sociedade” e colocou em debate os principais desafios da formação médica diante das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) aprovadas em 2025.
Para Estevão Toffoli Rodrigues, presidente da Abem, o 64º Cobem foi um importante espaço de diálogo e construção coletiva sobre os desafios da educação médica. “Saímos de Porto Alegre fortalecidos pelos debates sobre as novas Diretrizes Curriculares, avaliação, formação para o SUS, tecnologia e internacionalização, além de novas parcerias e perspectivas para os próximos anos”, completa.
Este ano a avaliação programática ganhou destaque como um dos principais eixos para a implementação das novas diretrizes. Para Toffoli, a prova será a ferramenta de transformação das escolas médicas, articulando avaliação, currículo e desenvolvimento dos estudantes. O tema também esteve relacionado às discussões sobre o Teste de Progresso, proficiência e às mudanças previstas pelas novas DCN.
Outro ponto central do congresso foi a formação médica orientada pelas necessidades da população e do Sistema Único de Saúde (SUS). As discussões reforçaram a importância de aproximar os estudantes, desde os primeiros anos da graduação, dos diferentes cenários em que o cuidado acontece, incluindo atenção primária, serviços de urgência e emergência e a rede hospitalar. “Consideramos os serviços de saúde como espaços de formação e defendemos a integração entre escolas médicas, serviços e comunidades”, completa.
Tecnologia e inteligência artificial entram de vez na agenda da educação médica
O avanço das tecnologias também esteve entre os temas de destaque do encontro. Simulação, realidade virtual, realidade aumentada e plataformas digitais foram discutidas como ferramentas que podem ampliar as possibilidades de aprendizagem e acompanhar a trajetória de cada estudante.
A inteligência artificial foi outro tema presente nas discussões. O congresso abordou tanto as possibilidades de uso da IA na criação de questões, casos clínicos e pacientes simulados, quanto a necessidade de desenvolver uma postura crítica diante das respostas produzidas pelas ferramentas. Também se debateu as questões éticas na incorporação dessas tecnologias, reforçando atenção a aspectos científicos e relacionados à qualidade e à confiabilidade das informações.
Congresso amplia articulação internacional
A presença de especialistas estrangeiros também refletiu o movimento de internacionalização da Abem. O congresso contou com representantes e experiências de diferentes países e instituições, fortalecendo o intercâmbio acadêmico e a cooperação em educação médica.
Entre os movimentos destacados está a volta da Abem à Federação Pan-Americana de Associações de Faculdades e Escolas de Medicina (Fepafem), após 12 anos de distanciamento, com perspectivas de intercâmbio acadêmico, produção conjunta de instrumentos, pesquisas e maior integração entre instituições das Américas. A Abem também vem ampliando sua aproximação com a World Federation for Medical Education (WFME), a AMEE e a TUFH.
O Cobem também abriu espaço para um debate emergente: a reciprocidade social como evolução da responsabilidade social na formação médica. Enquanto o conceito clássico, incorporado às DCN 2025m orienta a escola a responder às necessidades da comunidade, a nova formulação propõe que escola e comunidade co-produzam a formação, partilhando saberes e governança, um horizonte aplicável ao SUS e à diversidade do contexto brasileiro. Esse tema será aprofundado na Conferência Internacional da The Network: Towards Unity for Health (TUFH 2027), em setembro de 2027, no Recife, com o tema “Saúde para Todos: Reimaginando o Conhecimento, o Poder e a Parceria”.
A Abem será co-anfitriã do evento, em parceria com a Faculdade Pernambucana de Saúde, a Universidade Federal de Pernambuco. Você pode acessar para mais informações: tufh2027.com.
Rever 2 e novos caminhos para a educação médica
Durante o congresso, a Abem também anunciou a continuidade do Projeto Rever. A nova etapa terá entre seus principais focos a implementação das novas DCN por meio da avaliação programática e a formação de especialistas no Brasil.
A proposta prevê cursos de especialização, oficinas e mobilização de comunidades locais, regionais e nacionais. Também estão entre os eixos do projeto a educação interprofissional, equidade, inclusão e acessibilidade e o desenvolvimento das chamadas Atividades Profissionais Confiabilizadoras (EPAs) na graduação médica.
O 64º Cobem também marcou o início de uma nova gestão da Abem, que pretende construir um planejamento estratégico participativo para os próximos dois anos e estabelecer uma perspectiva de longo prazo para a educação médica. A proposta inclui a definição de objetivos, indicadores, responsáveis e prazos, além da construção de cenários para orientar as ações da entidade nas próximas décadas.
“Os congressos brasileiros são uma grande celebração da potência do diálogo da educação médica nacional. A gente espera que as pessoas levem para casa energia, alegria e a percepção de que seus desafios locais fazem parte de uma agenda coletiva. O Cobem mostra que temos um esforço conjunto para produzir respostas e soluções”, destaca Estevão.
Realizado anualmente, o Cobem se consolida como espaço de encontro e construção coletiva da educação médica brasileira. Em sua 64ª edição, o congresso reforçou a necessidade de transformar as novas diretrizes em práticas concretas de formação, avaliação e integração com o sistema de saúde, ampliando também o diálogo da educação médica brasileira com experiências e instituições de outros países.